15.3.11

Os Deolindas

Estive tentadíssima a não falar sobre o assunto, a ficar calada, sem opinião como se fosse um assunto que pertencesse a outra geração e não à minha. Como se eu fosse da "rasca" e eles os "à rasca". Mas não resisto a dizer o que penso, e acreditem, já pensei várias coisas, inclusivamente um pouco contraditórias - não tenho problemas com a contradição, a maravilha de crescer é mudar de ideias e estar bem com isso. Mas, então.

Achei extraordinariamente curioso que uma música tão prosaica, e que se chama "parva que sou", tenha provocado a catarse. Por outro lado talvez seja a explicação, o povo à rasca, a tal malta sem ideais, aquela que não é tão culta como os "rasca", que, imagine-se, faz xixizinho na rua a meio de uma manif, e que depois da mesma vai comprar CD's à fnac, é movida a canções - como se costuma dizer - com pouco suminho. Estou a ser provocadora, claro. O que é Rasca é a presunção daqueles que criticam a falta de ideais dos que se manifestaram, tendo porventura esquecido os tempos em que mostraram a bunda à política e a sua própria ausência de ideias, rascas são aqueles apontam falta de miserabilidade suficiente às pessoas que se manifestaram, rascas são aqueles que ficam ressabiados por outros conseguirem reagir, e ultrapassar a puta da letargia, e dar cara e voz por uma causa. Ainda que seja, aparentemente, e por enquanto, uma causa catalisada por uma música parva e desprovida de ideias bueda eloquentes.

Rasca sou eu porque me acomodei à política rasca. Porque aceitei submissamente viver a (falsíssimos) recibos verdes - durante sete anos passados ao Estado, porque aceito a ditadura do "workaholic", e aceito que em Portugal se deve entrar tarde ao trabalho, almoçar em hora e meia para sair tarde, porque só assim alguém acredita que eu trabalhei o suficiente, quando o que eu acredito realmente é que duvidosas são as pessoas que não conseguem executar o seu trabalho no horário "normal", rasca sou eu se prescindir da minha vida em prol de horários criados por aqueles que não têm vida própria. Rascas são os moderninhos que aguentam empresas com estagiários e não lhes pagam. Rascas são todos os que vivem na agonia silenciosa, mas mais rascas, são os que se apressam a tirar o tapete debaixo dos pés daqueles que se queixam estar “à rasca”.

5 comentários:

Bárbara Teixeira disse...

Correcção: o pessoal da geração "à rasca" (a minha!), não compra CD na fnac, saca tudo da internet... sempre se poupa um dinheirinho para comprar iphones4 e Canons 7D (para depois fazer registos não-precários da manif!!)

Cara Van, foi o melhor texto sobre a manif que li! Pelo menos aquele com que mais me identifico.

Van disse...

:-))

Obrigada pelo peu comentário, B.!

Andreia Azevedo Moreira disse...

Potentíssimo e verdadeiro. Subscrevo.

Van disse...

Camarada!!!

É já para a semanaanaaaaaaaaaaaaaa
:))

Andreia Azevedo Moreira disse...

Ah pois é!!!!!!!!!!!!!! :) Amanhã vacinas com o puto mas ódepois tou toda livre todos os dias. :)