O menino Nicolau é uma das grandes memórias da minha infância.
Criado por Sempé (um dos mais notáveis desenhadores franceses) e Goscinny (autor dos textos de Astérix), o menino Nicolau é um conjunto de histórias muito cómicas, onde os autores contam as aventuras da infância na perspectiva dos pequenos: sonhadores, brincalhões e sem perceberem as atitudes dos adultos. As personagens também são maravilhosas, o Nicolau tem amigos com nomes deliciosos como, Alceste, Clotário, Eudes, Godofredo, Rufus e Maria Edviges. Estava desertinha que o meu filho tivesse idade para gostar disto, o que felizmente já aconteceu.
(fica um excerto)
Djojo
Chegou um novo à aula. À tarde a professora chegou com um rapazinho que tinha os cabelos completamente vermelhos, sardas e olhos azuis como o berlinde que perdi ontem no recreio, mas o Maixent fez batota. «Meus meninos, disse a professora, apresento-vos um novo colega. É estrangeiro e os pais puseram-no nesta escola para aprender a falar francês. Conto convosco para me ajudarem e serem simpáticos com ele». E depois a professora virou-se para o novo e disse-lhe: « Diz o teu nome aos teus colegas.». O novo não percebeu o que a professora lhe pedia, sorriu e nós vimos que ele tinha uma montanha de dentes incríveis. «Grande felizardo, disse o Alceste, um amigo meu que é gordo e passa a vida a comer, com uns dentes assim deves morder uns belos bocados!». Como o novo não dizia nada, a professora disse-nos que ele se chamava Jorge Mac Intosh. «Yes, disse o novo, Djorge». «Desculpe professora, perguntou o Maixent, ele chama-se Jorge ou Djorge?» A professora explicou-nos que ele se chama Jorge, mas que na sua língua, aquilo se pronunciava Djorge. «Está bem, disse o Maixent, vamos chamar-lhe Jojo» «Não, disse o Joaquim, temos que pronunciar Djojo.» «Cala-te, Djoaquim» disse o Maixent e a professora pôs os dois de castigo.
O Djojo sentou-se, sempre a fazer o seu sorriso cheio de dentes. «É pena que ninguém fale a língua dele» disse a professora. «Cá eu tenho alguns rudimentos de inglês» disse o Aniano.
(...)
"O Menino Nicolau", Sempé-Goscinny, 1959

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