25.6.09

Das provas nacionais

Para ser sincera, não sei muito bem como anda esta coisa do ensino em relação à avaliação dos seus utentes. Ainda não percebi quantos exames, de que área, quando, etc., faz um aluno na sua vida “secundária”. Mas às vezes reparo em coisas estranhas:
Hoje li algures que a prova do 12º ano de Literatura Portuguesa era acompanhada de um glossário onde se incluía o seguinte:

Acabrunhado: desolado
Calabouço: cela ou compartimento prisional num posto de polícia
Logro: engano
Se espojava: se rebolava no chão

Ora tenho a dizer que o meu sobrinho de 4 anos sabe o significado destas palavras à excepção de logro (mesmo assim, tenho a certeza que deduziria pelo sentido da frase que se lhe apresentasse). Não, não é sobredotado. Apenas vê o Dartacão.
Ora tenho a dizer que isto é um insulto a todos os alunos do 12º ano e acho mesmo que deviam fazer uma manif a protestar.
E não, não estou longe da realidade. Eu sei que é possível haver alunos de Literatura Portuguesa com 18 anos que não saibam o significado de espojar… e depois? Isso é motivo para fazer um glossário numa prova de português? Suponho que uma prova de Literatura Portuguesa serve para aferir as competências de um aluno nessa área. Suponho que conhecer palavras portuguesas seja conveniente. Um glossário fazia mais jeito (e pelo menos não era tão ridículo) num exame de código.
Portanto, deixo aqui a carta que estou a escrever para o GAVE (o gabinete de ME que trata destas coisas das provas). Sitam-se livres para criticar.

Exmos. Srs. do GAVE,
Venho por este meio solicitar a V. Exas. que se dignem a retirar de qualquer tipo de enunciado de prova qualquer tipo de glossário pelas seguintes razões:

Ofensa: qualquer aluno, mesmo do ensino primário, se sente ofendido no seu bom nome quando alguém lhe está a chamar incapaz. Mesmo no caso em que uma pessoa não sabe o significado de uma palavra que teria obrigação de saber, fica na mesma ofendido, porque há alguém a alardear que lhe conhece a fraqueza.

Desperdício de recursos: não faria mal nenhum um aluno não saber o significado de acabrunhado (p.ex.). Se fosse mesmo necessário para a compreensão do enunciado, não teria outra alternativa senão a de perguntar ao colega do lado sem o professor reparar. Ao fazê-lo, desenvolvia muito mais competências do que olhar para um glossário (ainda por cima redutor). Aprendia a controlar o medo, pensaria numa frase consistente para dar como explicação caso fosse apanhado, geria a adrenalina, treinava a socialização, desenvolvia uma capacidade importantíssima que é o “desenrasca” e, muito muito importante, nunca mais se iria esquecer do significado do vocábulo.

Disruptividade: não me parece legítimo colocar glossários numa prova de Língua. Parece-me, na minha modesta opinião, que a base de qualquer aprendizagem nesta área é exactamente o conhecimento e correcta utilização dos vocábulos que compõem a língua que se estuda. Portanto, ou se faz a prova com um bom dicionário ao lado, ou se corre o risco. Quem sabe, sabe, quem não sabe, não sabe. Não é para isso que servem os exames, para saber quem sabe?

Os melhores cumprimentos,

P.S. Alarde quer dizer ostentação apregoada. Ostentação quer dizer jactância. Jactância quer dizer vanglória. Vanglória quer dizer presunção infudada. Presunção quer dizer, e por aí adiante. Tenho a certeza que V. Exas. sabem o que quer dizer disruptivo. Eu não sei mas tenho uma amiga que sabe. E esta amiga não sou eu. Vou perguntar-lhe às escondidas.

8 comentários:

Van disse...

Que excelente minuta, gostei muito :)

Eu também não estou dentro das jactâncias do "novo" ensino, pelos exemplos que dás, dá ideia que os senhores incluem no glossário palavras "não-tão-correntes" - quem sabe, por logro, ou visão acabrunhada, as julgaram como regionalismos ou calões :))) Nem quero pensar noutra hipótese ...

beijinhos
grande texto!

MacM disse...

Permita-me discordar. Um exame serve para medir o que cada um sabe do programa de aprendizagem a que foi submetido. Logo, duvido que o programa do 12º seja sobre a leitura do dicionário. E é por isso que as chamadas 'rasteiras' são tão anti-pedagógicas. Quem cai nas ditas 'rasteiras' não é necessariamente que não sabia.

alii disse...

Permita-me discordar. Um exame serve para medir o que cada um sabe do programa de aprendizagem a que foi submetido, de facto. Acontece que para aprender Literatura Portuguesa (neste caso) é necessário possuir algumas "ferramentas", uma delas o conhecimento da própria língua, parece-me. Também há outras competências que se devem ter adquirido, e que permitam compensar a eventual "rasteira" como lhe chama. De qualquer forma, considerar "rasteira" a utilização de palavras como as descritas no exemplo parece-me um bocado... falta-me a palavra. (Mas acho que se pode tirar pelo sentido do texto).

Van disse...

como se pode estudar o gineceu das hortenses sem saber o que é uma?

MacM disse...

Permita-me: não disse que as ditas palavras eram uma rasteira. Acontece que se pretende avaliar as competências adquiridas, então deve-se fazer perguntas sobre as competências adquiridas. Sem mais, nem menos. Não sei do que falo ao certo, mas a Literatura não é um conjunto de palavras.
Quando cheguei a uma terra solarenga, a senhoria que me hospedou falava amiude sobre os gaiatos:"raio dos gaiatos", "gaiatos levados da breca", etc. Passaram-se meses até saber que não se tratavam dos rapazes orfãos do Pe. Américo mas sim a terminologia local para "miúdos".

Van disse...

acho delicado, voçês tratarem-se por 'voçê' (não propriamente, que isso seria de bradar).

... pessoas que já partilharam algumas intimidades do foro alcoólico e terrorista (sem bem que só a Alii é que teve o privilégio de ser evacuada para baixo da abóbada de vidro)

MacM disse...

Não são raras as vezes que trato o pequeno Fonso por você ou por senhor. Mas trata-se de uma paródia que, por estar fora do contexto, ninguém percebe (nem ele próprio), pois na Linha há quem queria que eu seja tio à força, de gaiatos que são apenas filhos dos amigos!

Van disse...

Antes tio que padrinho.