5.5.09

Alto e Bom Som

Adorava lembrar-me de todas e escarrapachá-las aqui. Ao menos ficavam aqui. Mas não, a memória vai falhando, em especial, perde oportunidade. E a organização é nenhuma. Não sou daquelas mães que documentam os passos dos seus rebentos em livros fofos, por faixa etária. Onde todos os primeiros acontecimentos repousam, com a madeixa de cabelo e o coto do umbigo. De qualquer forma ainda quero acreditar que neste meu desleixe, nesta minha falha documental, há uma supremacia, egoísta, mas há. Que a grandeza dessa existência, que nos reinterpreta, é de tal forma, que as palavras, as fotografias e os documentos, são apenas imagens no tempo. Fragmentos da história. Auxiliares de memória. Porém, um dia mais tarde, serão saudosos registos lúdicos. Provavelmente, momentos de intimidade.

Estes são deleites recentes. Todos os pais passam por algumas vergonhas enquanto os seus filhos descobrem o mundo. Nos filhos "mais crianças", tipo o meu, de quatro anos, as vergonhas exclamam-se de forma admiravelmente inocente.

Em alto e bom som:

- Olha mãe, aquela senhora parece mesmo a Cruela
(sobre uma senhora, de cabelo negro, com duas madeixas brancas, que ia a passear os seus dois cães)

- Ó mãe, este senhor é estranhamente baixo
(no momento em que passávamos por um anão)

- Mãe, a Carlota é aquela, a que tem cabelo de bola
(a indicar uma colega, cujo cabelo, realmente, é um ripado tipo Tina Turner, mas curto)

- Mãe, mãe, olha para ali: quando fores velhinha compro-te umas daquelas
(no Supermercado, referindo-se às muletas de um senhor)

8 comentários:

alii disse...

O mesmo rebento disse a uns senhores muito velhotes com muletas (na minha companhia):
"Giras, essas bengalas que vocês têm!" A frase foi esta mas o tom é difícil de explicar. Ele estava a gozar com os senhores. Foi muito bonito e não me vou esquecer embora nunca tenha conseguido imitar o tom para explicar à família.

Van disse...

:)))olha, temos que ir repartindo as vergonhas...

Com tanta pequenada destemidamente observadora ainda vamos enterrar muito a cabeça na areia (a rir)

Andreia Azevedo Moreira disse...

O teu crianço é lindo!

Van disse...

:) (baba)

alii disse...

Van, tu terás que te enterrar mais pois o teu rebento é indiscutivelmente mais "observardor" que o normal... E o aguçado sentido de humor merecia destaque num caderninho daqueles que dizes que não fazes...

Da minha rebenta não tenho tantas experiências o que não quer dizer que não me ria todos os dias... Deixo aqui um registo não pela graça mas pela beleza:
Um dia íamos na rua e passou por nós uma menina invulgarmente preta com um penteado daqueles africanos muito rebuscados... toda ela era "invulgar". A rebenta disse: "mãe, viste aquela menina?" E eu, enquanto respondia "sim, o que é que tinha?" Já estava a pensar no que lhe iria dizer a respeito da cor de pele e da invulgaridade da personagem de modo a explicar que ela era muito bonita e que somos todos diferentes e bla bla bla. E diz a rebenta: "Tinha tantos elásticos de todas as cores!"

Van disse...

(santinha, não faço caderninhos não- tu sabes disso)

fabuloso! adoro isso nas crianças, essa pureza alheia às ideias pré-concebidas (por nós), o detalhe, o olhar sobre o belo e o cómico.

M. disse...

Não sei porquê mas detecto algo da personalidade da mãe no puto ...
;)))
(Muito, mas mesmo MUITO BOM!)

Van disse...

ganha-nos aos pontos! e ainda bem ;)

beijinhos