8.5.11

Em Nome de Deus

Quando Obama, como todos ouvimos, anunciou ao mundo que Bin Laden tinha sido morto, senti uma espécie de agonia, melhor dizendo, senti o reavivar da angústia espiritual que o texto que vos colo aqui em baixo convoca. Não pensei, obviamente, no "martírio" que Bin Laden pudesse ter padecido, pensei se por acaso o meu filho estava a perceber o que queriam dizer aquelas notícias, e pensei, agoniada, em Deus.
E Obama disse o que tinha a dizer, o que foi feito, e vingado, e depois terminou a importante comunicação ao mundo, pedindo que Deus abençoasse a América.

Depois têm-se seguido imensos debates sobre a forma, e poucas reflexões sobre o existencial caso.
Hoje li este texto, que intimamente subscrevo, de tal maneira que o quero partilhar convosco.

Os meus filhos bebem chocolate e nada disto teria importância se não me lembrasse de quando tinha a idade deles e sofri a primeira angústia espiritual. Na catequese, contaram a história de Abraão e Isaac. Há cerca de quatro mil anos, Abraão, na Baixa Mesopotâmia, obedeceu a uma ordem divina para seguir caminho, que o conduziria à “Terra Prometida”. Ele e a mulher tinham o desgosto de não ter filhos. Um dia, três anjos anunciaram que Sara iria parir (numa idade tida como impossível). A criança cresceu e, sem mais nem menos, Deus falou e pediu um sacrifício a Abraão. Que fosse a um monte e imolasse o filho como um cordeiro. Atormentado, obedeceu, e quando Isaac perguntou ao pai pelo cordeiro, respondeu que Deus trataria de tudo, e depois amarrou-o e deixou-o nuns gravetos. Quando o ia degolar com a faca, um anjo apareceu porque tinha visto que ele temia a Deus e surgiu um cordeiro preso num espinheiro, matou-se o cordeiro, salvou-se a criança. Lembro-me de chegar a casa e olhar o meu pai:
Não fazia. Mas é neste acto de divina paranóia do Livro do Génesis que se fundam as três religiões monoteístas: judaísmo, cristianismo e islamismo. Todas consideram Abraão o “Pai da Fé”. Todas são herdeiras do patriarca, pelo seu exemplo extraordinário de temor ao Deus único. No entanto, Deus é amor. Se achais que pedir a alguém para matar o filho é amor, não discuto. E essa pessoa ir mesmo matar o filho por ordem de Deus ser também amor, amor deve ser. Pouco sei de Teologia. Mas, como dizer?, acho mal. Trinta anos depois da catequese, encontrei uma das razões por que escrevo: contra a escravatura das religiões, a obrigatoriedade da fé que tanto mal faz às crianças da Terra. Tenho respeito por Deus, mas se existe é má pessoa. Eu mudava de atitude, com tantos poderes.
Creio que Jesus Cristo, um homem que fez das maiores revoluções mentais da História – todos os homens são iguais -, logo estragada pelos “Pais da Igreja”, pilares do catolicismo, que conseguiram ver lógica na existência da escravatura, teve uma atitude singular. Cristo revelou uma espécie de bom senso. Tanto na versão amistosa – deixai vir a mim as criancinhas, porque delas é o Reino dos Céus – como na justiceira pura e dura – a quem tocar e conspurcar uma criança devia-se-lhe pôr uma pedra ao pescoço e atirá-lo ao mar. Mas não se pode estar sempre a puxar pelo lado bom e fazer de conta que o resto não existe. Porque continua a ser ensinado. A obediência cega, como se diz na má ficção. Pessoas acharão, imagino, que o facto do jornalista inglês Christopher Hitchens estar a morrer é um castigo pelo livro Deus Não é Grande. De facto, é uma obra filosófica e histórica desgastante para os crentes. Uma ideia: falta um milagre ao Papa João Paulo II para ser santo completo. Salve Christopher Hitchens.


Rui Cardoso Martins, revista Pública, 08-05-2011

1 comentário:

Andreia Azevedo Moreira disse...

Subscrevo. É(são) arrepiante o(s) maior(es) logro(s) da história. MEDO a melhor forma de ter reféns. Eis o que fazem as religiões (não sei se há excepções) impô-lo para obter manadas de seres obedientes.