Ao meu lado estava uma mulher que chamava à atenção, não pela indumentária, bota branca e mini-saia cor-de-rosa, inusitada para a época mas apropriada para uma meia-idade vivida ao estilo boazona, não pelo cabelo, igualmente espampanante para a nossa época, nem mesmo pela pochette, de pêlo branco tal e qual um porco-da-índia aninhado por dedos enriquecidos de oiro. O que me fez ficar parada naquele pedaço de tempo, o tempo de pedir e beber uma bica, foi o perfume da mulher.
Era o cheiro do quarto de uma criança que tardou em se tornar mulher, povoado de bonecas espanholas nas estantes onde já deviam habitar os livros e as cassetes, cheiro de uma cama adornada de folhos e renda da grossa, onde vivia a rainha das bonecas com o seu vestido de sevilhana impecavelmente arranjado ao centro da cama. Já a bica digerida há que tempo e ainda consigo sentir um pouco do cheiro da mulher, tão injustamente igual ao aroma da minha prima, a Maria da Conceição, a quem as crianças se entregavam sem resistência. E se ela teimava em ser calorosa! um hábito das pessoas de boa índole e carnes roliças. Longe da estética sevilhana e com cheiro a denunciar as proximidades de Badajoz as crianças suportavam-lhe os abraços, apertadas por um corpo onde podiam desaparecer imensas alices, porque lhe reconheciam a essência, fragrância de bonomia e meninice.
E porque lhe cobiçavam o quarto.
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