13.9.10

Portuguesismo

Há uma coisa que me chateia e até me causa alguma agonia, que é ter de me preparar para aturar a má educação dos outros. Não falo, claro, do que se passa nas quatro paredes do refúgio familiar, aí ainda é possível, com mais ou menos tino, exibir os maus fígados e partir uma caneca foleira num momento de fúria. Falo da vida social, dos serviços e das repartições. Ter que me preparar para ser mal atendida por pessoas mal-educadas é francamente ridículo. É compreensível lidar com a estupidez humana na sua essência, que é tácita e irremediável, mas lidar com quem não tem vergonha na cara e tira partido dessa estupidez é que não. Não concebo ser contínua e deliberadamente mal atendida na Segurança Social e nas Finanças, e ter que aceitar esse cenário sempre que (obrigatoriamente) lá vou dá-me imensa volta ao miolo. Num país onde se copiam diariamente tantos modelos estrangeirados não se copia o básico, simpatia e educação.
Depois há a questão cénica, as repartições não são propriamente espaços convidativos, onde abunde a distracção para as vistas ou mobiliário ao estilo feng-shui. Mas hoje, e esta conversa vem a propósito de hoje, tive uma surpresa. O meu bairro fiscal foi finalmente remodelado. Agora o televisor das senhas passa mensagens ecológicas, e o castanho das paredes foi substituído pelo azul e branco.
Só as pessoas é que são sempre as mesmas.
Existe o funcionário que não atende senhas F nem explica quem tem a cargo essa letra, e o contribuinte que padece, com a maior das calmas, de ataques de pânico quando tem que ir às finanças – e por isso, com a maior das calmas, diz discretamente ao funcionário que não atende senhas F: Oi, sou prioritário, devo passar à frente dos outros. Estava quase a achar piada à hilariante representação quando me apercebo que o ser prioritário era, afinal, a filha adolescente (das não precoces) da senhora que dizia estar a padecer de ataques de pânico.
Eu, que até tinha sido a primeira pessoa a chegar à repartição, depois uma canseira de mensagens para tornar o mundo melhor, de diversas pessoas me terem passado à frente e principalmente, cansada da minha habitual tolerância e simpatia, olhei para o relógio, vi que estava razoavelmente atrasada para o trabalho, e na maior das calmas decidi ter um ataque de pânico.

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