24.9.09

Pedro


Em 2008 fiz um workshop de escrita para cinema e televisão. Tive imensos problemas com a instituição que promoveu a iniciativa, e uma sorte estrondosa com os formadores. Quando me inscrevi, tal como agora, não vislumbrava perspectivas profissionais na área, interessava-me apenas ir beber conhecimento a territórios que eu gosto especialmente, a escrita e o cinema. Grande parte do curso foi dada por um extraordinário homem, que comecei por detestar logo na primeira aula. As primeiras aulas com o Pedro foram arrasadoras, demolidoras das pretensões artísticas dos alunos que frequentavam aquele workshop. Incrivelmente, mais demolidoras para os espíritos imberbes, que do alto dos seus vinte e poucos anos sentiam uma enorme injustiça e bloqueio artístico com as opiniões do Pedro. A ideia era escrevermos um guião para uma curta-metragem, mas passámos um mês, sem excepção, bloqueados com a questão do tema e do problema dramático em cada uma das histórias. O Pedro explicou-nos Aristóteles, levou filmes de culto, insistiu na complexidade da escrita de argumento, aliás, área onde é licenciado, e acima de tudo era implacável com os alunos, ou formandos, na questão do sentido da história. Não deixava ninguém avançar sem que o próprio estivesse ciente, passo a passo, de cada linha do guião, do sentido da coerência do tema ao longo da história. Todos os filmes são sobre um tema que se quer falar.

Bom, esta abordagem resultou mal. A maioria dos alunos sentiu-se incapaz e incompreendida e com falta de paciência para com o eloquente amante do cinema. Muitos desistiram e poucos entregaram o trabalho final, o tal guião.

Conheci o trabalho do Pedro Costa através do Pedro Sabino, um dia ele levou o DVD com o título mais belo da história do cinema e emprestou-mo. Não morri de amores pelo conteúdo, é difícil entrar na máquina do cinema quando não se tem a sensibilidade apurada pela escola. Mas pude entender por onde pode viajar a sua essência.

Nem sempre podemos morrer de amores ou ser arrebatados pelas coisas, mas também não podemos ser preconceituosos ao ponto de fecharmos os olhos ao que nos querem dar a conhecer. Eu acho.

A memória veio com a notícia que dá conta que Pedro Costa vai ser homenageado na Tate Modern. Desconfio, que é justo.

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