2.7.09

Vícios de Repartição



Engraçado, hoje de manhã estive numa formação que à partida julguei ser aborrecida. Mas não foi. A manhã foi inesperadamente interessante. O formador cómico e eloquente, falou de conceitos "inovadores", aparentemente difíceis de concretizar por transporem o normal funcionamento e a lógica das instituições públicas. Ele falou do “desempregado funcional” e de como “cada organização tem a sua cultura”. Não é assim tão simplex reformar organizações, as nossas repartições. Mas alguém tem que dar o pontapé de saída, essa é que é essa, sem teorias derrotistas tão frequentes nesta mentalidade maior de repartição. Por momentos, dada a eloquência do orador, cheguei a temer que estivesse perante o Santana Lopes da casa.

Depois, inevitavelmente perdi-me. Lembrei-me do meu anterior emprego, de como estas ideias vão demorar a chegar lá, e do que isso representa. Nesse ciclo de sete anos passei os momentos mais apimentados desta vidinha de trabalho. A repartição pública na sua versão doméstica é tramada. Mas borbulha de vida, de emoções, de destemperança. Lembrei-me que se for desta que acabam os papéis, se tudo passar a ser digitalizado, se passarmos a digitar o pin da assinatura digital em vez de a gatafunharmos, as senhoras que distribuíam o papiro-correio, pelos andares da antiga repartição, irão perder o seu posto. Imaginei que irão ter dificuldades tremendas em se adaptarem a uma função mais exigente, pelo percurso e pela idade, na maioria dos casos. Subestimei-as, concerteza. O melhor que lhes poderá acontecer é saírem daquele posto inerte que representam durante anos, dessa desqualificação que é a trasfega de correio entre pessoas que habitam a mesma "casa". Numa relação de 2 mulheres/piso/cambada de gente com artroses graves nos joelhos.

Algumas das pessoas mais interessantes, engraçadas, e ternurentas, que conheci na minha vida profissional eram correios de repartição. Uma em especial. Aquela senhora que me fazia um sorriso desgraçado quando eu saia do elevador e dava de caras com ela. Aquela senhora que tinha aquela mania desgraçada, que eu sabia, porque já vinha a ouvir no elevador ainda ele não tinha chegado. Aquela senhora que tinha uma mão sempre enfiada numa gaveta e com a outra mantinha a compostura. Aquela senhora, que para combater o tédio fazia o que lhe dava na real gana da exígua secretária com vista para o nada.
Entre coisas hilariantes que eu não posso revelar, rebentar papel-bolha era um dos seus vícios favoritos.
E eu ajudei a alimentar.
Que saudades da dona Alzira.

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