
Acho que este post pode ser escrito a duas mãos (é uma visão muito romântica, faz lembrar aquele filme em que eles faziam barro a dois), pois a Alii pode completar a segunda parte da história.
Suportar estes dias quentes tem uma vantagem, as noites. Tenho saído diariamente com o petiz depois de jantar, eu faço esplanada e ele faz parque infantil. É óptimo, só é pena que não haja uma esplanada agradável de olhos postos num agradável parque infantil. Lastimo essa falta de visão na cidade, entre outras, mas enfim. Fui ter com uns amigos que supostamente jantavam numa esplanada do renovado Campo Pequeno e o petiz ficou ao rubro porque adora o parque infantil do Campo Pequeno (não é tauromáquico). Quando cheguei estava um ambiente delicioso, a noite magnífica e a praça engalanada - era dia de tourada. Passei por ali com verdadeiro regozijo do momento, soube-me bem apreciar os contrastes. As pessoas chegavam aos magotes tranquilos para jantar por ali e entrar na praça, a música da fiesta dava brilho ao bronzeado espelhado na tez de alguns marialvas e suas esposas, e nos jovens, muitos jovens vão ver a tourada. Num mix que resultou perfeito ouviam-se, a um canto protegido, as vozes discordantes de alguns cinquenta jovens que vestiam preto e seguravam nos megafones amarelos:
- temos vergonha de vocês!
- temos vergonha de vocês!
- temos vergonha de vocês!
Do outro lado a música, e as pessoas que passavam por entre os manifestantes em passo manso, sereno, de cavalinho treinado e tranquilo como a noite. Alguns contrastes podem ser muito belos, harmoniosos.
Bom eu estive um bocado com os pequenos no parque, a seco, pois não existem esplanadas e cafés naquele lado da praça de touros - primeira falta de visão. Depois fui ver os cavalinhos engalanados com os meninos e por fim fui levar a pequena Alice, que já estava k.o. de sono para junto da sua mãezinha e paizinho, que jantavam, não numa esplanada mas no interior de um dos restaurantes do outro lado da praça. E aqui começa a parte da história que a Alii pode contar, pois fui dar com os meus amigos a jantar num mausoléu cheio de porcelanas, vidros e néons - atenção, a mesa ia mudando de cor. Fiquei com a sensação que eles jantavam uma espécie de coisas finas (não me esqueço dos três pasteis de massa tenra no suporte acrílico, de três andares) na secção de vidros da Pollux. Um amigo nosso só se ria e dizia "não acham que os restaurantes de uma praça de touros deviam ser mais toscos?". Pois claro. Segunda falta de visão.
Para terminar, quando sai do restaurante e os deixei lá, a seco, pois com tanta alegoria não tive oportunidade de beber a minha bica, já o ambiente no exterior da praça tinha mudado. Repentinamente ficou deserta pois a fiesta brava já tinha começado. Passei de mão dada com o meu filho pelos jovens manifestantes. Tal como nós gozavam da aragem perfeita e do seu merecido silêncio. Continuavam de sentinela, sentados, tal e qual um grupo de jovens escuteiros numa amena à volta da fogueira.
Até me pareceu ouvir baixinho, yupi ai ai yupi yupi ai, yupi ai ai yupi yupi ai, ai ...
Gostei.
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