
A minha vizinha da frente tem três cães, é seu apanágio. Pelo menos para mim e para as pessoas que me visitam. Dois Caniches, um verdadeiro e um arraçado, e um lindo Podengo que é o meu preferido. Às vezes aparece nas revistas cor-de-rosa, com ar esgazeado, e quando regressa a altas horas, leva sempre os cãezinhos a fazer xixi. Eu ouço sempre a dança daquele xixi. Tenho também o meu vizinho Rogerinho, um perfeito rockabilly. Vive de noite e detesta que o acordem de dia, tipo obras e coisas assim. Mas é fixe. Certa vez dispensei-lhe arroz para o jantar, no dia seguinte tinha no tapete da porta uma nota de agradecimento e um boneco marciano em miniatura. Gostei muito, arrancou-me um sorriso descarado. Depois vêm os velhotes, muitos, mesmo muitos, e cheios de acessórios - óculos, normais, progressivos, canadianas, simples, de tripé, placas, bengalas, em nogueira, em pau santo, cães, netos, etc. Estão quase todos doentes, da cabeça e do outro corpo. Reconheço duas demências graves, uma obesidade mórbida, um cancro e o resto são mazelas de velhos, nada de mais. No entanto, a gestão do condomínio está a cargo da dona Alzira, com a idade mais respeitável da comunidade, 84 anos. Fantástico! e não é exploração da idosa, cujo portento físico e mental faz inveja aos outros condóminos. Tanto que a elegem consecutivamente. E estava a esquecer-me do outro jovem, o meu vizinho rapazola com cabelo à Beatriz Costa, estudante de Belas Artes, que dá vida e cor ao prédio - nunca me irei esquecer do momento em que durante uma reunião de condóminos, num cubículo junto à arrecadação, onde repousam meia dúzia de antiguidades, ele propôs que se colocasse um quadro com um cavalinho verde, pintado por ele, no elevador monta-cargas - para dar a sua graça. Coisa que não lhe faltou, mascarada lá na sua timidez, mas que veio à tona com o regozijo e a ternura dos mais velhos, e apesar do embasbacanço, lá disse o antigo guarda-livros do seu posto presidencial, entalado entre a dona Alzira e o Rogerinho:
- Bom, nunca pensámos em dar-lhe graça ... mas, tem razão meu filho, ponha lá o que quiser.
e todos esticaram pernas, relaxaram membranas e sorriram.
Hoje é o Dia Mundial do Vizinho, ouvi falar de umas iniciativas que juntam condóminos, beberetes em hall, danças, e folclore. A iniciativa nasce dos Comités de Habitação Social, e ambiciona chegar a todos (soube outro dia que Siza é vizinho de Souto Moura, e que não trocam lápis de carvão, mas ramos de cheiros. lá está). Esta forma de atenção devia ser natural, como é nos meios pequenos, como era onde eu cresci - só não achava piada a um vizinho que me cumprimentava com pequenas chapadinhas nas bochecas enquanto soletrava o diminutivo feminino do nome do papá, era o seu jeito action-man.
A solidão é penosa e dá em todo tipo de condomínio. Os nossos velhos vivem descaradamente mal, descaradamente abandonados. Padecem mais nas grandes cidades. Por isso festejo este dia (penso numa ranchada folclórica com a minha malta), na troca de sorrisos e ramos de cheiros.
2 comentários:
:) :) :) Adorei.
;) beijinhos
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