
Dos sonhos. Coisa tão rara ultimamente, lembrar-me assim de um sonho real, uma memória boa que chega pelo sonho, apenas. Assim com imagens, e tudo tão perto. Sonhei com o Rossio, com o café Facha, com a fonte, com a calçada, com a casa dos meus avós. Com eles. E apareceu agora, como se fosse uma passagem lúcida pelo tempo da infância boa. No Rossio do meu sonho, haviam muitos homens na rua. Era quarta-feira, então. Quando os homens iam todos ao Rossio para negociar, ali assim, de pé, troca por troca, e acerto de preços. Todas as quartas os homens enchiam o Rossio, da janela de casa da minha avó fazia adeus aos meus primos do campo, também eles iam à cidade tratar dos seus assuntos. Em casa, de manhã cedo, já cheirava ao almoço de logo. Um reboliço de cheiros, conversas, entra e sai. Como no Rossio. Que tinha, da minha janela privilegiada, da minha casa dos meus avós, um prédio à direita que depois veio a ser um banco, à esquerda outro prédio que depois veio a ser outro banco. Mas antes foi a casa dos pais do meu amigo Daniel, foi lá que encontraram um tesouro escondido numa parede. Era um baú com moedas. Eu nunca tinha conhecido alguém que tivesse encontrado um tesouro. Nunca mais esqueci. Os meus sonhos também não. E o Daniel também não. Depois, quase em frente, o Café Facha. Daqueles com o balcão enorme, os jornais, a política e a dona Elisa. O dono e a dona e o cão e os filhos, da dona e do dono, que moravam ali perto, também via a casa deles da minha janela especial. Os senhores dos negócios iam lá beber cafés, entretanto. As mulheres dos senhores iam comprar coisas à Rua Direita e roupas à Casa Caroço. Por baixo da minha janela, ficava a mercearia do senhor Rodolfo, aquela que tinha uma máquina de pôr moedas para saírem ovos com peluches, soy um mono sin verguenza, dinero, dinero, dizia a máquina macaco do senhor Rodolfo. Era a mercearia mais bonita do mundo, tenho a certeza que quero ter a certeza, pois tinha um balcão de madeira gasta e tudo o resto era em vermelho, armários prateleiras, fachadas, ficava bem com os chupa-chupas do frasco de vidro em cima do balcão - em espirais coloridas, e com as verdadeiras Bombocas, que se vendiam em caixas de cartão parecidas com as dos ovos. Havia mais um prédio de gente conhecida e uma residencial, que se chamava Facha, pois era do dono e da dona do café. Por baixo desta as bombas de gasolina do Rossio. Normalmente não havia problema, só aos Domingos, os carros entravam pela entrada do lado da Rodoviária e faziam fila para atestar. Lá dentro aquilo era muito bonito, painéis de azulejo brancos e aquelas coisas que costumam haver nas oficinas. No final da fila dos carros de lata, um rapaz, que ia mudando consoante o turno, vestia o seu fato macaco e atestava de Super, muitas vezes. Enquanto ele enchia o depósito dos nossos carros, eu gostava de espreitar o seu escritório, com um rádio que tocava sempre muito alto e muitas resmas de blocos com papel químico, entre outras folhas com aspecto mascarrado. Em frente ao carro que se alimentava a família dos engraxadores, os Terruca, um pai e dois filhos, que sempre tomaram conta dos sapatos do meu pai e do meu avô, e dos primos do campo e de todos. E assim. Era. Coisa que ficou num sonho real, que a fantasia é hoje. Que o Facha está fechado, com umas correntes pretas. Os bancos já não são decorados com cofres poupança para crianças, um modelo que existia em verde e vermelho, do Montepio. A rua direita já tem 5 à Sec e a Casa Caroço já viu melhores modelos de festa. As bombas mudaram, por perigo de eminência, não fosse a residencial explodir pelos ares, e o Rossio. É uma loja de roupa, com Croqs e coisas dessas, um bocado desportivas e meio chinesas. Já não há fato de macaco e motas a atestarem por um funil. Os engraxadores estão mais velhos, o pai está doente. O dono e a dona e o cão e os filhos do café já lá não estão. As quarta-feiras são ocas, os homens do campo fazem negócios pela internet. A minha avó ainda lá está, à janela. Vê-me e faz adeus. Só adeus. Já não me manda ir para casa com voz de semi-quase-zangada. Que isso foi no sonho. Essa terna sonambolia.
6 comentários:
Está tão diferente Portalegre! É o preço da modernidade, que os residentes agradecem porque os liga mais ao resto do Mundo, e entristece quem por lá vai em busca da paisagem bucólica e serena, e do Portugal dos anos 50.
Mas continua a ser a região mais bonita de Portugal (para mim, claro!)
Adorei conhecer um bocadinho disto que fez parte de ti tanto tempo. E senti contigo a nostalgia. Gostei muito deste texto.
Pois é meninas, pura nostalgia a reboque dos sonhos. Portalegre está muito diferente, vai mudando, acompanha os tempos e aproveita os 'Pólis'. Só não mudam as duas serras que a abraçam num vale.
Muitos beijinhos
A mais bonita sendo a de S. Mamede com a magnifica Vila de Marvão lá bem no topo. Aiii que nunca mais chegam as férias para me pôr na varanda a comtemplar a Serra e os nostros hemanos de Valencia de Alcantara.
Beijinhos já soalheiros e a lembrar a proximidade estes momentos booooons.
(e uma bejeca na Portagem)
M. sabes tão bem do que falo :)
beijinhos
ah pois é??!!!
e a molhar o pé na água fresca da piscina :)
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