Estava eu ainda agora a almoçar o público quando, ao ler a crónica do Miguel Gaspar, me deu uma vontade súbita e inexplicável de escrever coisas. Ora eu não gosto muito de escrever porque entendo que só se escreve para alguém ler (está visto o que me dizem os diários e essas coisas cor de rosa que costumam ter as senhoras). Ora eu até gostaria muito de ter algum público leitor (>0 é suficiente) mas infelizmente a única pessoa que me acha graça (graça no sentido de sal) sou eu própria o que não considero público leitor: resolvo a questão a pensar e escuso de passar por momentos difíceis como aqueles em que paramos para pensar onde é que é o acento do difícil ou se acento é com c ou com s. Ora não pensem que não sei escrever! Pois sei e duvido que haja muita gente que saiba escrever um relatório químico como eu. Ficamos por aqui. Embora tenha esta característica a que se pode chamar escrita seca, gosto muito de figuras de estilo. Só me lembro do nome de uma delas, que é a que costumo usar com mais frequência, a hipérbole, mas mais no discurso oral. Ora as outras não lhes conheço o nome mas identifico-as todas. Por exemplo, aqui apeteceu-me usar aquela do repete repete para intensificar a ideia. Ora já devem ter reparado que já escrevi ora uma data de vezes. Claro que não intensificou nada mas o que é que isso interessa? Ora é muito bonito, não é? Todos temos um camões dentro de nós.
Como já viram, tenho o mesmo problema com a escrita que com a conversa. Não havendo limites, i.e. briefing aberto ou ausência dele, não consigo parar, resumir ou organizar… vai correndo… desnexadamente... E quanto mais escrevo (falo) mais longe estou do objectivo/ideia final, i.e. do que quero dizer efectivamente. Ora voltemos ao princípio.
O texto trata de um assunto curioso que é o facto (fato nos dias que correm mas continuo a escrever com c porque o digo, como no cabeleireiro) de as pessoas afirmarem terem lido livros que efectivamente não leram. Fiquei muito intrigada com isto. O que levará uma pessoa a dizer que leu o 1984 (George Orwell, 1º lugar da lista) se não leu? Não me parece assim muito dramático admitir que não se leu isto, ou o Ulysses (3º lugar). Ora se fosse os cem anos de solidão, a insustentável leveza do ser ou a viagem ao mundo da droga eu ainda compreendia (deduziria que o inquirido tinha medo de revelar que não tinha sido parvo e não tinha tido amigos na adolescência…) mas 1984? E estava eu nesta análise sociológica às voltas com as minhas teorias quando me surgiu uma visão: eu num daqueles concursos tipo os do filme indiano onde o Malato me perguntava quem era o autor do Primo Basílio e eu… não sabia! Ora eu sei montes de coisas que não interessam para nada (a que eu chamo cultura lello (porque muita veio de 2 volumes com esse nome lá de casa, não de ciganos)) mas que, mal ou bem, me fazem capaz de responder correctamente a quase todas as perguntas desses concursos onde se ganha dinheiro. Ora, precisando eu tanto do dito (dinheiro), porque não me inscrevo no concurso? Porque o Malato pode perguntar quem escreveu o Primo Basílio e eu não aguento essa nudez. Percebi os inquiridos e acabei a análise sociológica porque a conclusão a que ia chegar a seguir não me agradava nada.
Ora isto que vou escrever devia estar ali pelo meio do texto bem enquadrado e etc. mas só me lembrei agora… às tantas, cita-se na crónica o Woody Allen: “Tirei um curso de leitura rápida e li a Guerra e Paz em 20 minutos. Sei que tem a ver com a Rússia.” E isto lembrou-me uma antiga conversa entre uma minha eventual-futura-cunhada que me estava a tentar explicar qual era o filme-da-vida dela, embora não se lembrasse do título, sabia que “tratava de um cão” e era com o Jack Nicholson… e eu ia dizendo tudo o que me lembrava com Jack, porque com Jack+Cão nada me ocorria. Passada uma boa hora à volta do assunto descobrimos: Melhor é Impossível. Lá está. O cão.
4 comentários:
Olha se eu contar eu leio-te:)
E fizeste-me rir muito nesta crónica (de forma comedida para não perceberem que em vez de estar a bulir te estou a ler)
e esse é tb um dos filmes da minha vida :)
Continua que para mim escreves muito bem e com piada.
Não aguentavas a nudez? hã hã
Obrigada Andreia, fico muito contente por ter um leitor. Não sei se é bom para vocês... pode-se dar o caso de ocupar isto com um post de 50 páginas...
Redgrave,
Nudez pois. Nudez de espírito, ego, etc. Lá porque a outra não me provoca qualquer constrangimento não quer dizer que tenha tudo resolvido. Nesta parte da nudez interior, confesso que ainda tenho alguns tabus...
Senhora, tens as duas nudezes muito bem resolvidas. Já sabia, mas tive a certeza quando dissertámos sobre certas matérias, outro dia, num telefonema com duração juvenil.
Do ego: a tua solução para o problema é grandiosa. Não vejo melhor opção que enfrentar o senhor Malato, e uma pergunta básica para a qual desconhecerias a resposta, que simular um desmaio! Uma queda estrondosa da cadeira abaixo :))))
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