
O silêncio pode ser tão reconfortante quanto constrangedor.
A mim reconforta-me muitas vezes, como hoje. Partilhava-o com mestria num restaurante quase vazio, lá para fora, espreitava por uma janela redonda. O primeiro sol ilumina especialmente este silêncio, letargia boa, calor saudoso. Todos exercem esta languidez do tempo, os empregados demoravam o seu tempo com os pedidos, molengões. E o dia está tão bom. O patrão, reconheci-o. O homem estava perdido. Observava-o daquela janela redonda. Irrequieto ocupava uma mesa da sua esplanada, que se ía compondo. Olhava para tudo e para nada. Levantava-se e sentava-se a um ritmo estranhamente frenético, nada complacente com a preguiça dos outros todos. Dava ordens, controlava e, no momento seguinte, voltava a ocupar o seu lugar na esplanada, numa mesa vazia e impessoal, sem o conforto acessório de um jornal, um copo de água que fosse. O homem ali ficava intermitentemente sem saber, incomodado consigo, girava a cabeça como um animal assustado, resistente ao compasso. E o meu pedido eternizava-se, o almoço demorava a chegar. Só os namorados comiam. Em silêncio, também, enquanto ruminavam aqueles olhares moles. Disfarçavam, a celebração do dia.
O almoço veio previsivelmente frio e atrasado. Ninguém queria saber. Lá fora, o homem entretanto rendera-se. Submisso ao rasgo que sol que lhe apontava na cachimónia dormente. Lestos foram os tempos, pensava eu, enquanto olhava para ele, o patrão entorpecido, de olhos semi-cerrados. Vá, lá, permitiu-se ao deleite.
Vim-me embora pendurada na visão daquela esplanada indolente, pernas esticadas, óculos de sol e votos de silêncio. Uma mulher, que exibia os braços brancos, a primeira manga-curta. Fruto da época, todos se querem despir. Começam os afoitos, irremediavelmente saturados, sedentos do nosso sol.
1 comentário:
O silêncio às vezes oprime. Outras reconforta. E também tem dias em que é simplesmente estranho e fugimos (a sete pés) dele. Bjinhos e bom fim de semana! :)
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