É possível ver o olhar de incómodo causado ao bovino da brenha, intrigado com a carrinha onde passeam os turistas urbanos. O par de cornos e a musculatura do bicho denotam o inóspito do seu habitat, a altitude faz-me palpitar os ouvidos, apercebo-me que quero regressar e olho para o ponteiro da gasolina - parece que dá para voltar. Entre-calhaus e quilómetros imensos, quando me via a bom caminho diz o motorista: "e ali o Paul do Lobo", depois conta a história das grandes caçadas ao aterrador canino. Mais à frente. Além da família bovina, do lobo mauzão, há o homem. Sim, faltava o guerreiro do mato, guardador do gado, o Pastor. Diz o motorista, "é homem de poucas conversas". Eu penso que isso é óbvio, mas deixo-me ficar calada, estou de férias não quero arranjar problemas. Olho para o guerreiro de soslaio, imagino-lhe os genes, a herança de Paul, as caçadas nocturnas aos lobos. O motorista dá a imagem, os pormenores sórdidos das fortes pauladas na cabeça dos selvagens canídeos. Sinto pena dos bichos, mais deles que de todo o gado que possa ser comido, pobres animais. E os pastores? Olho de novo para o guerreiro da brenha, nascido e criado no Gerês, que pega com a Sierra do Xurês, do lado de lá da fronteira. Nesse momento adivinho-lhe a sorte e atrevo-me a cheirar-lhe a vida, mas por pouco tempo. O guerreiro autóctone desmistifica "nasci e vivi sempre aqui, mas o que eu queria mesmo era viver em Loures, aquilo é que é paisagem!"
Como um naco maronês a pastar em Bucelas, senti a Serra fugir-me pelos pés, cambiar.
(reedito um texto, do Verão passado, crónica de férias - que na altura certo povo julgou ser um texto ficcionado. Pois não é, e daí o atrevimento no título)
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