5.1.09

memória

O faro, momento canino. Gosto especialmente de testar a memória do nariz. Descer com ela rua abaixo, seguir-lhe o rasto tal e qual perdigueiro e ludibriá-la na ponta do (meu) nariz, sempre em equilíbrio, bem embalada, até que se julgue mais esperta, repentinamente, pronta a trocar-me o caminho. Disponho-me a perder tempo com esta, só com esta. Não lhe dou guia até ela se cansar, obedecer, língua de fora que nem uma cadela treinada, passo a passo com o meu. E que não ouse esgueirar. Basta seguir a meu lado, em pista.

Basta isto.

Sou boa fisionomista de rasgos abstractos. Logo, péssima para detalhes. Coisas miudinhas, cor do cabelo, a roupa, o aparelho dos dentes, os botões de punho ou, até, e às vezes, coisas importantes. Aguento-me por memórias abstractas, sentido de sensações. Cheira-me que sim, que a conheço da vida. Não me esqueço de um vulto. Sou boa a reconhecer sombras e coisas vagas, em particular. Faço um figurão, espanto rapidamente os mais detalhistas. Com facilidade chego a um Verão qualquer, especialmente quente, a um país, aquele, aquela música, também a um corredor de supermercado, à dor de pés, aquele gesto, ao frio e, a todos os objectos, que se parecem com gente, até, ao clássico. Cheiro-de-terra-molhada. Vingo-me neste apetite de misturar os vultos das sensações, deles e minhas, memórias. Mas martirizo-me, quando é preciso saber onde, especificamente. O número do sapato, o cabelo, para que lado vai a franja, a data do aniversário, o sinal ao canto da beiça, o nome dos filhos, ou qualquer coisa assim. Tipo isto.

Vivendo aqui, claro que me obrigo, quando há ímpeto, ao exercício de mnemónica. Recorro, muito desorganizada, aos Post-it e aos programas das coisas da memória. Reminders. Mas não chega e, além disso, há sempre surpresas. Gente que aparece na rua, nas conversas, nos acontecimentos que, só por si, já estão prontos para a rasteira. Também se perdem oportunidades, gestos incisivos que tinham caído bem, ou apenas nada. Entre outros. Porque se vive aqui.

E as coisas misturam-se
E tornam-se noutras
Memórias
Ainda que cheirem,
ao de sempre.

3 comentários:

Andreia Azevedo Moreira disse...

Que magnífica crónica! Adorei. Bjinhos

P.S. Estou de baixa em casa. A antibiótico...

Van disse...

(Obrigada, ontem estava canina)

Rápidas melhoras. Cá te espero para o nosso almoço de rentrée (p.s. não te esqueças, daqui a nada começa a tertúlia cor-de-rosa)

beijinhos

Andreia Azevedo Moreira disse...

oh! Maldição! Não vi o comentário a tempo e perdi esse portento de informação. eh eh eh. Bjinhos