O dia-a-dia é feito de repetições. E tal como Santomé, a segurança dessa mecânica instintiva liberta a nossa mente para viajar até à lua.Nas viagens de combóio, em que escolho sempre a última carruagem, todos os dias se repete gente que automaticamente, na minha cabeça, se transforma em personagens: o casal alternativo, o senhor do blazer e cabelo cinzento, o leitor do jornal de automóveis, a tipa de peito avantajado mas sem ancas.
Estes personagens têm uma consistência própria: trazem os mesmos pertences, escolhem o mesmo jornal e sentam-se (quando podem) nos mesmos lugares.
O casal alternativo, os que eu acho mais interessante, está na primavera da vida: a fronteira dos 20 para os 30. Ele veste-se como o Morrisey, mas o cabelo é rapado. Tem um ar tranquilo e sereno. A mulher é bonita e traz sempre roupa divertida, muito alternativa e, por vezes, uns totós no cabelo. Tem vários pares de óculos escuros mas ultimamente traz uns de aro vermelho. Tem um ar tímido e é distraida pois às vezes volta para trás à procura de coisas que deixou no banco. Este casal levanta-se sempre em Santos (a penúltima paragem) e caminha em direcção às carruagens mais para a frente. Suponho que ele seja informático; não creio que esteja no design pois veste-se de forma um tanto monocromatica. Também pode trabalhar numa rádio ou algo semelhante mas na parte técnica (som, por exemplo). Admitiria que ela trabalhasse numa loja de comércio alternativo (tipo aquela da mana Portas) mas julgo que possa ser um oásis no cinzentismo da função pública, pois há demasiada rotina para trabalhar por sua conta. Talvez se dirija para um gabinete da CML relativo a programação cultural.
1 comentário:
Esta vou ao Google pesquisar por 'óculos de ver - modelo Oasis' a ver se encontro alguma coisa...
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