19.12.08

“Orgulho em Ser Português”


Como é que eu explico isto a uma criança de 4 anos? Melhor, como é que eu explico isto? Aliás, o que é isto?

É uma coisa, fraseada, que faz de tema ao ano lectivo da escola do meu rapaz. Pois. E eu devo contribuir. E então, afinal o que é o Orgulho em Ser Português? Eu, sinceramente, não sei explicar sentimentos um bocado dúbios relativos a uma geografia específica. Tenho ideia que o português está habituado a dizer mal, joga no campo oposto. Logo, exercitar o “Orgulho em Ser Português”, por um português, pode dar em esquizofrenia. Digo eu.

Não me lembro se já senti orgulho em ser português. Deixa pensar, e deixa ver a Wiki, “Orgulho é um sentimento de satisfação pela capacidade ou realização ou um sentimento elevado de dignidade pessoal. Em Português a palavra Orgulho pode ser vista tanto como uma atitude positiva como negativa dependendo das circunstâncias. Assim, o termo pode ser empregado tanto como sinónimo de soberba e arrogância quanto para indicar dignidade ou brio.” Pois, é complicado. Conjugar a palavra e o português.

Tento lembrar-me dos tempos em que vivi fora de Portugal, foi um ano, é tempo. Penso, penso, mas nada, Orgulho, não estou a ver. Saudade, isso sim, a falta de. Deixa cá ver outra vez o que diz a Wiki, “Saudade é uma das palavras mais presentes na poesia de amor da língua portuguesa e também na música popular, "saudade", só conhecida em galego-português, descreve a mistura dos sentimentos de perda, distância e amor. A palavra vem do latim "solitas, solitatis" (solidão), na forma arcaica de "soedade, soidade e suidade" e sob influência de "saúde" e "saudar".”É verdade, não tinha o meu sol, o meu bacalhau (julgo que nessa altura ainda não apreciava comer o dito), o telejornal, o sujo, certas lágrimas, as ordinarices dos homens-das-obras, sei lá, faltava-me o hábito e tinha saudade dos meus.

Mais coisas. Penso em “AllPride”, seriam todos os motivos de orgulho condensados no ser famoso: Eusébio, Amália, Figo e (agora que já pode) Ronaldo. Não está mal, mesmo assim, ainda longe, daquela relação directa português-orgulho. Há tanto português, e tanto motivo de orgulho. Não, por aqui também não vou lá.

Então fui a uma loja, aqui na rua. Na tableta diz “Sopping-Center”, mais miudinho, “Handicraft - Artesanato”. Boa, era mesmo isto, pensei eu, inspiração.
Entrei, disse boa-tarde às duas senhoras, que falavam tuguês-dinamarquês, e percorri o nosso país handicraft. A senhora (morena) ia dando ao interruptor, e eu descobria salas e mais salas, um país do caraças: rendas, licores, pochettes da ilha da Madeira, azulejos de pendurar, as taças das couves, uns queijos, entre muitas coisas, o que verdadeiramente me interessava: Nossas Senhoras Fluorescentes e Galos de Barcelos Meteorológicos.

Foi a Saudade.
De esticar o dedo minúsculo, pedir o galo, ter a certeza que aquilo funcionava, porque naquele dia estava a chover, ele tinha que ter mudado para cor-de-rosa. E da Senhora, que ficava mais bela, diferente e iluminada, fluorescente por baixo dos pesados cobertores.

Não resolvi a questão na sua essência (ainda bem). Mas trouxe o galo.
Irá para a sala-de-aula.

2 comentários:

MacM disse...

Pode soar a um pouco de graxa ou sabonete (ach brito), mas qual Miguel Veloso, cada vez mais deixas de ser uma promesa para seres um valor seguro. Excelente texto, Van! (ops, um ponto de exclamação, espero que perdoes)

Van disse...

Obrigada. Vindo de ti - Cintra Torres, sabe a oiro (feel free, usa o que te apetecer, cinto de ligas, marrafa à Bento, óculos degradée, já sabes)