Estendia o napron de linho imaculado sobre um banco de madeira, a meio da cozinha mas de soslaio para a chaminé. Em cima, religiosamente, uma tangerina, uma azevia e um cálice de vinho do Porto. As crianças acudiam ao chamariz dela, curiosas com o estranho repasto e com a encenação. Perfeita, cândida. (Nunca espreitei esta parte, aquela em que o menino descia pela chaminé, roubava uns gomos à tangerina, dava uma dentada na azevia e, por inteiro, o cálice de vinho do Porto. E depois, era entre eles, quem sabe, em surdina, uma canção ao menino-tão-belo). As crianças, entretanto distraídas, acordavam novamente para o seu alarido. Pasmadas, notavam o que o menino tinha comido. Ela, crente, avisava que ele tinha entrado e saído pela chaminé. E só depois se abriam os presentes.
A minha avó querida.
(Feliz Natal)
