29.12.08

(ainda) Portalegre

O livro andava por lá, desmerecidamente empoeirado numa das estantes do "Quarto de Solteira". É, falo de "E se eu gostasse muito de morrer", do Rui Cardoso Martins.

O senhor autor é da terra e sobre a terra escreve. Sobre a morte, o mistério da estatística do suicídio (muitos, muitos) na terra, no Alentejo. Por isso, abaixo, quando se fala em ultrapassar Beja nas calmas, não se trata de um trocadilho malandro, tribal, mas sim da estatística. Este livro, esta seca ironia, é especialmente cómico e comovedor para os Lagóia.
Aqui fica um excerto, importante.

«Quem nos enterra agora. O suicídio do coveiro é dos factos mais importantes de uma cidade.
Houve pesadelos, as pessoas sonhavam as suas coisas sobre o escândalo e discutiam-nas pela rua com os vizinhos, até as mais malucas. Mulheres que tinham deixado de se falar por parvoíce ou ciúme, e a seguir por hábito, trocavam sinais de sobrancelhas à distância. Formavam-se círculos de discussão na Rua Directa e tertúlias debaixo do plátano do Rossio, onde era pacífico: ele fizera bem em se matar, era aliás inevitável. É uma opção de vida respeitada e com grandes tradições na terra. Sim, às vezes nós, outras os suecos, embora se conte que estes têm muito mais fama do que o proveito, ou ainda algumas aldeias na Hungria, mas aí diz-se que têm a ver com uma cena genética esquisita. Com frequência ultrapassamos Beja, nas calmas. Em Agosto, e não é assim tão raro, o objectivo é o recorde mundial, isto são estatísticas e está tudo em números.
Morto sozinho na serra, coberto de mimosas, o coveiro fizera-se a si próprio meio funeral, simplificava. Mas desta vez o caso era grave. As opiniões diziam-se olhando o chão, ou o céu, num suspiro cinzento. Frases secas que tinham princípio meio e fim, como as tábuas.»

2 comentários:

Andreia Azevedo Moreira disse...

Cheira-me que este livro é muito bom. Depois emprestas-me pois é? Obrigada! Feliz 2009! Beijinhos

Van disse...

Pois é, claro que sim. Que venha esse 2009, bom no essencial.

Muitos beijinhos