23.11.08

O ser cão

Fui beber café 'matinal' ao sitio do costume.

Aquele em que o empregado reconhece na nossa cara a vontade de uma 'bica na fria', que essa vontade é um desespero nos sábados e domingos a más horas e ainda aquele café onde os velhotes se sentam ao nosso lado na esplanada a comer pernil, ao meio-dia, aquela hora desesperante por cheiros ligeiramente mais suaves.

Quando me sentei na esplanada reparei num ser diferente do habitual. Um rapaz engraçado, escondido numa parka de fazenda cinzenta, de olhos bonitos, acompanhado por um jornal e um maço de cigarros amassado. E também por um cão com ar ladino, preto lustroso, desenrascado, rafeiro.

Chica. Percebi mais tarde que era uma cadela, quando um casal de velhotes se sentou na mesa do lado e ele a mandou atinar. A velhota parecia estar incomodada com o cão, e o rapaz ofereceu-se para afastar Chica para outro lado. Mas o velhote respondeu: "deixe estar, nós também temos cães, gostamos muito destes animais". O rapaz sorriu e acendeu um cigarro, uns minutos depois disse: "sabe, eu acho que os cães são animais muito nobres". E passou.

A seguir vejo Maria Isabel, enregelada até às costelas vir direitinha ao rapaz.

Maria Isabel faz parte da mobília, desta casa que habito há uns anos. Todo o Domingo Maria Isabel aparece com o seu ar franzino e cabelo lambido, desprovido de roupa e rosto canino. Uns olhos pedinchões, como os de Chica, que gaba o meu croissant. Maria Isabel lembra, desculpadamente, que se esqueceu da sua carteira na Missa e que está com muita fome. Come sempre um folhado de salsicha e uma meia de leite, gosta das bebidas quentes. Fica contente e agradecida com as esmolas, faz aqueles olhos caninos.

Esta manhã, ela fez o mesmo pedido encarecido ao rapaz. E depois não consegui perceber mais nada, parece que deixei de ouvir. Mas Maria Isabel parecia diferente, com uma expressão que não reconheci. Ficaram ali os dois a falar um com o outro, e Chica continuava pedinte a olhar para os bocados que caiam do meu croissant. Apenas ouvia Maria Isabel regalar-se com a repetida apresentação, Gonçalo e Maria Isabel e vice-versa. Maria Isabel sentiu que podiam ser primos.

Depois despediram-se, ela foi-se embora, de rabo a abanar, esquecida da meia de leite e do folhado de salsicha. Mais tarde, o rapaz enrolou o jornal debaixo do braço, deu soltura a Chica e foram à sua vida.

Sem comentários: